Quando a fumaça branca subiu sobre a Capela Sistina em outubro de 1978, o anúncio deixou a multidão romana confusa: o nome do novo papa era quase impronunciável em italiano. Karol Wojtyła, de Cracóvia, era o primeiro papa não italiano em 455 anos — e, para os poloneses vivendo sob o comunismo, um terremoto.
Oito meses depois, ele estava na Praça da Vitória, em Varsóvia, diante de centenas de milhares de pessoas, e rezou: 'Que o teu Espírito desça e renove a face da terra. Desta terra.' Todos entenderam exatamente de qual terra ele falava. Muitos historiadores datam o começo do fim do comunismo naquele sermão.
Ator, Operário, Padre
Karol Wojtyła nasceu em Wadowice, perto de Cracóvia, em 1920. Aos vinte anos já havia perdido a mãe, o irmão e o pai. Sob a ocupação nazista, trabalhou numa pedreira de calcário e numa fábrica química enquanto atuava num teatro clandestino — encenando peças sussurradas cuja descoberta poderia significar deportação.
Em 1942 entrou no seminário clandestino de Cracóvia e foi ordenado em 1946. Muito antes de Roma, era conhecido como o padre que fazia trilha, caiaque e esqui, e que os estudantes chamavam simplesmente de 'Wujek' — Tio.
De Cracóvia a Roma
Como arcebispo de Cracóvia a partir de 1964 e cardeal a partir de 1967, Wojtyła tornou-se um opositor sutil e incansável do regime — travando por anos a famosa batalha para construir uma igreja em Nowa Huta, a cidade siderúrgica projetada para ser o modelo socialista sem Deus.
Em 16 de outubro de 1978, os cardeais o elegeram papa. Ele adotou o nome João Paulo II e abriu seu pontificado com as palavras que viraram sua assinatura: 'Não tenhais medo!'
Nove Dias Que Abalaram o Comunismo
Em junho de 1979, voltou à Polônia como papa — uma visita que o regime não podia recusar. Em nove dias, milhões o viram pessoalmente; pela primeira vez em décadas, os poloneses puderam se contar e perceber que não estavam sozinhos. Quatorze meses depois, nascia o Solidariedade, com líderes abertamente inspirados nele.
Ele sobreviveu a um atentado na Praça de São Pedro em 1981 — e depois visitou o atirador na prisão para perdoá-lo. Tornou-se o papa mais viajado da história, visitando 129 países antes de sua morte em 2 de abril de 2005. Foi canonizado em 2014.
Não tenhais medo!
Fatos Curiosos
- Foi o primeiro papa não italiano em 455 anos e, aos 58, o mais jovem do século XX.
- Quando menino, em Wadowice, jogava futebol como goleiro — muitas vezes pelo time judeu da cidade.
- Visitou 129 países, incluindo o Brasil mais de uma vez — mais do que todos os papas anteriores somados.
- Depois que ele relembrou com carinho as kremówki (tortas de creme) de Wadowice, o doce virou febre nacional.
- Seu sermão de 1979 em Varsóvia — 'renove a face desta terra' — é apontado por historiadores como uma faísca do movimento Solidariedade.
